Geradores de Sentido

Quando vejo John Baldessari queimando suas obras não penso na História da Arte. Penso no ato, desapegado, livre e provocativo. Enquanto seus amigos lançam suas obras na fornalha do crematório noto que John ri. É um riso de 1000 graus centígrados. Mas ele permanece firme, como um gigantesco orangotango da arte, barbudo e iconoclasta.

Dizem que a arte moderna nasceu da raiva e do ressentimento. Eu diria que a arte contemporânea foi gerada pelo senso de humor misterioso, confuso e ameaçador do conceitualismo. Uma das (três) correntes de pensamento de Henri Bergson, no ensaio Le Rie, de 1900, “focava a incongruência como catalisador essencial para o efeito cômico” (BEYER. 2007). Não seria, então, a incongruência – manifestada como o inverso do trivial – uma das muitas chaves para o entendimento da arte contemporânea?

Por que não podemos afirmar que exista um artista que personifique o projeto contemporâneo da mesma maneira que Pablo Picasso vestia o modernismo? A resposta é simples e está enraizada na ideia de pluralismo pós-moderno. Não existem universalismos possíveis em um mundo onde a arte se desorganiza em torno da diferença. Além disso, os pós-modernistas clamam que a arte não pode ser compreendida através de seus elementos formais, mas requerem também um entendimento do seu contexto cultural (EFLAND. 2005).

Se aplicarmos a teoria da incongruência de Bergson à arte contemporânea, poderíamos dizer que a arte conceitual, pré-arte contemporânea, consiste em instaurar modos não-conformistas de deslocar o mundo. Esse artista (pós-moderno) incongruente lança mão de preposições a cerca da realidade reinventando-a através de métodos narrativos não-lineares. Isto nada mais é do que a essência da arte conceitual. Por mais que não tenhamos permissão de utilizar a palavra ESSÊNCIA, pois os pós-estruturalistas nos queimariam vivos na fogueira da impermanência.

Assim, a elasticidade e a flexibilidade da linguagem, com o auxílio de truques que invertem os significados e transpõem os sentidos, possibilitam um ataque direto às bases estabelecidas da lógica à rigidez cotidiana. Isto quebra o senso de direção tradicional do observador obrigando-o a participar do processo pensando. Neste ponto, às objeções dos modernistas já não fazem o menor sentido. Eles permaneceram imóveis tentando compreender o conceito da planaridade em um mundo dinamicamente hiperbólico.

Querido leitor, peço desculpas pelo pensamento tangencial, vamos voltar a John Baldessari. De certa forma ele pegou esse mundo hiperbólico, massivo e saturado de ícones e manipulou como uma criança manipula argila. Bateu nele, amassou e o agrediu em surras filosoficamente homéricas. Ele ensinou o alfabeto para vegetais como um exemplo de pesquisa antropológica, enquanto o vovô Duchamp se contorcia no caixão. Baldessari perseguiu a semiologia e a destrinchou, repetindo isso ad infinitum. A essa experiência, de destruição/recriação da linguagem, ele chamou de arte.

Os espectadores do senhor Baldessari deixam suas exposições aliviados. Todos seus anseios são amenizados quando olham para as galáxias de pontos coloridos e para os milhares de narizes e pensam, “ufa, eles ainda estão lá”. As repetições, as colagens e as apropriações estão lá, penduradas na parede dos white cubes do mundo. Como toda a boa e velha arte chata. Tudo bem, John não liga para isso, os fundos para sua batalha cool continuam entrando. Novas ideias aparecem, mas a ironia incongruente continua sendo o principal dispositivo do arsenal.

Uma retrospectiva de John merece destaque, Pure Beauty (Beleza Pura), realizada entre 13 de outubro de 2009 e 10 de janeiro de 2010, no templo britânico da arte, Tate Modern. Durante 3 meses, 30 anos de sua produção foram expostas. Havia de tudo, de foto-montagens a vídeo-documentos, textos publicitários alterados e figuras removidas de pinturas clássicas. Para John, tudo pode ser manipulado e incorporado. Tudo pode ser criticado, fragmentado e revirado. O mundo é seu playground onde todas as babás foram assassinadas.

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Referências

BERGSON, H. O Riso. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BEYER, V. Limits And Laughter. The Comedy of Lenny Bruce and Andy Kaufman. Univ. Duisburg-Essen, 2007.
EFLAND, A. D. Cultura, sociedade, arte e educação num mundo pós-moderno. in: GUINSBURG, J.; BARBOSA, A. M. O pós-modernismo. São Paulo: Perspectiva, 2005.

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