Picabu # 4

Review escrito por Wilson Costa, colaborador do Meia Palavra

A começar pelo índice, que faz lembrar o final do conto Ligéia, de Edgar Alan Poe, criatividade parece ter sido a palavra-chave na elaboração da hq Picabu. E hq aqui, como os próprios criadores fazem questão de colocar na capa, não significa história em quadrinhos, mas história em quadros. Uma definição justa, visto que a revista definitivamente não foi feita para crianças.

"Tudo começa quando você agrega infinitos elementos intercomunicantes em busca da irrealidade paradoxal do mundo. Depois disso, o tortuoso caminho vai parecer não ter sentido algum. Haverá alienação e impossibilidade de retorno. Nesse momento ocorrerão N reinvenções, e o mundo real, amortecido pelo hábito, aparece.

O grupo Bestiário é formado por Moacir Martins, Rafael Sica, Rodrigo Rosa, Leandro da Silva Adriano, Nik Neves, Carlos Ferreira e Fabiano Gummo. Utilizando o substrato individual somado à retroalimentação criativa, o coletivo pactua referências fusionando estilo."

Com esse texto de introdução (precedido por um outro escrito de trás para frente, o qual não colocarei aqui), tem-se início a Picabu #4, coletânea de 12 histórias curtas onde predomina a total liberdade de forma e conteúdo por parte de seus autores, com temas tão diversos quanto o sentido inconsciente da fala humana e o puro erotismo.

Algumas das melhores histórias (Hiato, de Rafael Sica, e Ondas, de Carlos Ferreira) dispensam diálogos ou narração e apelam para o puro surrealismo para buscar um significado mais profundo. Impregnadas pelo preto e branco (como todas as demais), as duas histórias buscam retratar a solidão, seja nas relações humanas ou no afogamento de um homem. Outras histórias, ainda que sejam mais convencionais em seu formato, são também tão interessantes quanto: como Telencefalos, de Leandro Adriano e Carlos Ferreira, que com uma arte que lembra a dos mangás japoneses, conta uma história sombria que mistura medicina e cinema; ou Escândalo, de Rodrigo Rosa, que denuncia o circo exibicionista da televisão e do mundo das celebridades, bem como a alienação de seus espectadores; e A contagem, de Guraci Fraga e Rodrigo Rosa, um exemplo perfeito do humor negro. Todas as histórias contidas na revista merecem ser lidas mais de uma vez. Seja em busca de algum significado perdido, ou apenas para apreciar a arte, que varia do lúdico ao macabro, do extremo detalhismo à simplicidade, da luz à escuridão, da crítica à insanidade. Basta uma das histórias da revista para que ela já valha à pena: Vostok, de Fabiano Gummo, inspirada em Kafka de certa maneira, e que em apenas duas páginas deixa o leitor com o peito apertado.

Ler a Picabu me fez pensar nas semelhanças entre os quadrinhos e o cinema, como o uso das imagens como princípio básico da narrativa, e também na diferença inerente entre os dois, pelo menos nos padrões atuais, que é o silêncio. Talvez seus autores tenham buscado inspiração no cinema mudo, ou no expressionismo alemão que mais tarde veio dar origem ao noir, ou talvez essa confluência tenha nascido de seu inconsciente coletivo, mas eles souberam aproveitar dela muito bem. Souberam fazer da falta de cores e de som o palco ideal para contarem suas histórias. Mais que uma bela experiência imersiva, Picabu #4 serve para deixar o leitor com um gosto de quero mais, esperando ansiosamente pela #5.

O grupo Bestiário, responsável pela criação da revista, pode ser encontrado no site: http://www.bestiariopicabu.blogspot.com/

Sobre o autor: Wilson Costa é o Wilson lá no Meia Palavra. Você pode ler mais textos dele no blog o lobo antes da porta.

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Um comentário:

Ethon disse...

Muito boa a lembrança de Ligéia, me ganhando de saída para a ponderação tocante desta obra coletiva focando o volume e seus embutidos tão característicos e diversos, talvez ainda mais por cada desenhista assinar dois enredos. Outras palavras boas (confluência) e usos livres da palavra (surrealista), de dicotomias e idéias de casos pensados que pegam bem... Vostok também me deixou buscando um chão na literatura ou coisa que o valha, por uma referência não menos clássica (eu ia teclando "óbvia"): Samuel Beckett. Mas deixa para lá, não vamos inibir a moçada.