Review Picabu 4

Review originalmente publicada no UHQ por Eduardo Nasi.
Atualmente, uma porção farta dos quadrinhistas independentes brasileiros tem a mira apontada para os leitores - querem angariá-los, seduzi-los, conquistá-los. Mesmo trabalhando à margem das editoras, esses criadores defendem e fomentam caminhos alternativos. Mas a intenção é ampliar o contingente de público de suas HQs.

O caminho é legítimo, e isso não se questiona. Até porque, com a internet, se tornou uma opção teoricamente viável.

O curioso é que, ao mesmo tempo, os quadrinhos experimentais minguaram.
Mais curioso ainda é que um dos quadrinhistas de maior sucesso do Brasil, Laerte, tenha se tornado o grande nome da experimentação na arte sequencial com as tiras que fez nos últimos anos.

Tudo isso para dizer que é a essa facção experimental que Picabu se filia.
O projeto surgiu nos anos de 1990, em Porto Alegre, então chamada de Peek-a-boo. Teve três edições, todas explorando a linguagem dos quadrinhos e usando-a como recurso para fazer histórias em comuns.

Depois do ocaso de 17 anos, o projeto é retomado com o mesmo espírito.

A revista abre com Mathias Rosner, história em que o texto de trás para frente, com palavras-chave perturbadoramente na ordem comum, revela o enredo. É um dos pontos altos.

Há outros, e são vários. Como a arte no estilo de xilogravura de Carlos Ferreira em Ondas, o mundo de cabeça para baixo de Rafael Sica em Hiato, a frustrante tensão sexual de Chuuuuááááá, a desoladora O homem sedento e a encantadora Magique (ambas com a arte pop de Nik Neves), a tragicomédia de Escândalo e a perturbadora Hongo.

Além delas, há ainda as ilustrações que fazem a transição entre as HQs - em que um artista desenha um fragmento da história do outro.

Em todas as histórias, é visível que os criadores não fazem quadrinhos por fazer - expressam o que podem, o que é autêntico, o que é verdadeiro. E, nesse campo, não há certo e errado - só a disposição do leitor em encarar a arte e o artista.

De cara, Picabu assume a contramão do mercado. Não seus autores, porém: diversos deles fazem trabalhos altamente vendáveis - até mesmo adaptações de clássicos para escolas, tão em voga.

O papel da Picabu é criar um espaço de expressão para os autores e de provocação aos leitores. Sua intenção não é vender muito - e justamente por isso tem que ser comprada.

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