Análise

"O primeiro movimento para a libertação é a mudança de ângulo. Ver sempre sob a mesma perspectiva é a garantia do bitolamento. O ideal é colocar-se na posição de um observador. Creio que só escreve uma boa autobiografia aquele que o faz na terceira pessoa. Contudo, caso não se tenha o grau de desapego necessário para tal, que continue em primeira pessoa, mas que enxergue sob outro prisma. Break on through to the other side e veja e sinta o que tem lá. Certezas se fragmentam. Dificilmente surgirão substitutas, além da convicção aristotélica sobre o nada saber. Mas a desconstrução de adágios pessoais é fundamental para a libertação. Nossas verdades são os tijolos da cela que construímos para nós mesmos.

Quando mudei de perspectiva e estiquei meu pescoço para o outro lado, subitamente vomitei minha infância. Não sei por que isso ocorreu. Ela simplesmente escapou pela minha boca tão logo minha cabeça rompeu a barreira do quadrado que me cerca. Mas ainda estou nele. Apenas esgueirei meu rosto para fora por um breve instante que me causou uma enriquecedora náusea. Vi um mundo novo, estranho. Mas estranho nada mais é do que o diferente daquilo a que se está acostumado. E por lá deixei minha infância. Não cheguei a nenhuma resposta precisa, mas sei que preciso me livrar de muitas coisas dos meus primeiros anos de vida. Sem dúvida naquela época adquiri muitos complexos que me atormentam até hoje. Mas isso já é uma ineficaz tentativa de auto-análise e não quero me aventurar nisso. Apenas desejo narrar-lhe minha experiência, afinal a análise fica por sua conta. Só lhe peço um favor antes de começá-la: deixe eu me mudar do divã para a poltrona, pois por alguma razão incerta não estou me sentindo bem nesse esquisito sofá."
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Texto de Renato Amado inspirado na imagem abaixo

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