w. moe

Parte 1 – muito antes de qualquer coisa

Não podia ser verdade, aquilo não estava acontecendo. Um homem, aparentando ter uns sessenta anos, apontava um revólver para a cabeça de uma criança. Willy Moe o conhecia, suas feições não eram estranhas, pelo contrário, eram até familiares. O homem estava nervoso. “Ele vai atirar!”, pensou Willy. As pessoas no vagão olhavam apavoradas.
Mas o homem desengatilhou a arma e desistiu. Jogou a criança para um lado qualquer como um saco de batatas e disparou contra a janela do vagão que explodiu em milhões de pedaços de vidro. O homem suava, olhou para Willy que prendeu a respiração e então, saltou. Willy não acreditava. Levantou-se do banco e teve um súbito pensamento, queria rever seus amigos. Todos do vagão estavam nervosos e falando ao mesmo tempo. Alguém se aproximou da janela e olhou para fora, na esperança de ver o que havia acontecido com o homem. Mas nada pôde ver.
Quando Willy desembarcou do trem sentiu um desconforto peculiar no estômago. Encostou-se na máquina de pão-de-queijo e despejou todo recheio que o incomodava.
- Meu deus, o que foi que eu fiz? –sussurrou enquanto acendia um cigarro.


Parte 2 – num passado de Willy


Quando Willy Moe olhou pela janela um antigo pensamento atravessou sua mente. Ele escolheria a única alternativa possível e nada poderia fazê-lo voltar atrás. Sentiu um alívio imediato, uma paz análoga ao tratamento farmacêutico dado aos antílopes australianos quando estão prestes a dar a luz.

Willy Moe mancava. Suas pernas haviam sido corroídas pelos anos de tabaco barato. Ele se virou e disse:

- Quero que me diga uma coisa...
- Não faça isso, Willy. – Enquanto Madame ZZZ falava, bolhas de sangue flutuavam em frente ao seu rosto. Ela estava amarrada a uma cadeira, com os braços estraçalhados pendendo para baixo.
- Enquanto estiver desprovida de sua pele maldita quero que lembre do porquê. – Willy Moe ergueu a mão acima da cabeça e mostrou o que trazia em sua cintura. O serrote brilhou sob a luz da cidade.
- Espere Moe! Você não pode...
- Ah sim, eu posso...


Parte 3 – um dia a mais

Por que teimava em tentar dormir? Ele sabia que era tortura, nunca conseguia, e isso já durava quatro anos. Permaneceu deitado, rolando no farrapo que era sua cama até bater 6 horas. Levantou-se e organizou suas coisas da melhor forma possível. Não tinha vontade de conversar. Foi até a cozinha e serviu uma dose de azeite e tomou de um gole. Acendeu um cigarro. Saiu.
- Onde você vai? – berrou uma voz do interior do apartamento.
- Pelo amor de deus, me deixa em paz! – gritou de volta.
- Seu otário! Vai a merda! – berrou a voz.
Moe não podia esperar, estavam esperando por ele do outro lado da cidade. O que quer que aquela vaca disesse não deveria interferir em seus planos. Andou, correu e subiu no trem. A velocidade do dia o impressionou.
- Estação Biunívoca – informou a funcionária ferroviária. Moe desceu.


Parte 4 – 16:00 pm

O local para onde Moe estava indo era diferente no que diz respeito à textura natural da cidade. Seus contornos e matizes imitavam a composição orgânica de vespas africanas.
- Que hora ele vem? – Indagou Blow Born. Trazia na mão direita um livro sobre cerâmica mexicana e na esquerda um manriki-gusari.
- Cala essa boca, Born! Tô tentando pensar aqui! – Disse o pequeno Rothenberg, ou “Sid”, como a maioria o chamava. Sid, havia encontrado um meio de mergulhar profundamente no interior do cérebro de Willy.
- Olha aqui, se ocês tão pensando que eu sô troxa, é melhor se prepará. Não me interessa quem é esse Willy, vô recortá e depois cume, mas antes vô pilá a janta desse caga-pau! – Born tinha o aspecto de bêbado regenerado, como se tivesse fugido de uma clínica de alcoólatras numa noite de chuva.


Parte 5 – ele sempre segue alguém

Moe ficaria estático, esperando. Veria toda a sua vida manter a constância dos acontecimentos num plágio exeqüível de verborragia. E por que? Por medo e covardia. Mas ele sentia que suas ações o levariam a algum lugar? Não, não sabia. Entretanto, analisando seu corpo congelado e desesperado, tentava entender os passos que dera até ali. Analisava todas as conexões que o fizeram estar no exato lugar onde estava. E não bastava um sim, ou um não. Não era isso, ele queria visualizar algo mais. Enxergar através dos limites de sua imaginação inerte. E então, o que fez a seguir deixaria muitos em estado catatônico ou pior. Ele observou a sua mão, e a mexeu. E com a navalha que sempre trazia no bolso, dilacerou parte da genitália. Quando os vasos foram cortados sentiu o líquido viscoso escorrendo pelas pernas. Pôde olhar enquanto seus testículos caíam em câmera lenta e atingiam o chão imundo. Agora sua mão ia lentamente até seu rosto, e ali o trabalho foi duro. Começou pelo nariz, obtendo uma incisão perfeita. O nariz pendia no rosto, e o sangue brotava viçoso. Arrancou os globos oculares com destreza e maestria. As cavidades simétricas no crânio tornavam o conjunto avermelhado um tanto bizarro e lindo. O nariz e os dentes, a língua e as orelhas, todos os elementos que o caracterizavam perante a sociedade foram extirpados. E por fim, a caixa torácica teve a sua vez. Ali, ele teve um certo trabalho em abrir as costelas calcificadas, a navalha mostrava sinais de cansaço. Quando conseguiu, o coração pulsava, brilhante. Já não podia mais ver, mas sentiu com uma das mãos. Era quente e vigoroso, quase uma máquina, não fosse pela textura orgânica. Sua mão limpou a navalha na calça e iniciou a tarefa. Não foi fácil. Quando a aorta se partiu, uma chuva vermelha precipitou-se sobre si mesma. E o coração por fim foi arrancado, estirando músculos e tendões, rompendo tecidos e veias. O miocárdio ainda estremecia ao ser jogado no chão. Moe acordou com um sorriso no rosto.

Parte 6 – não é aquilo.

- O que? – gritou Moe. – O que você quer dizer afinal?
- Não é nada! – perante Moe, ela era forte e brilhante. – quem você pensa que eu sou? Não adianta irmos de encontro ao fim?
Ele duvidava muito de tudo aquilo. Era um sentimento amargo, o da perda. O sentimento de duas mentes colapsadas. Duas pessoas imersas numa luta sangrenta de vida ou morte. Moe perdera. E sabia que perdera. Seu longo caminho chegara ao fim. Agora era o tempo da automutilação, suas imensas expectativas haviam sido removidas, seu solo ruía. Não acreditava em suas próprias palavras e muito menos em seus atos. Ele fez. Irremediável.
- Isso não é uma competição! Não vê? Isso é muito mais. É a pura tentativa de isolação. – os lábios borbulhavam de sangue e com os olhos injetados de ódio e desilusão, ela virou-se.
- Não! – Moe, agora exalava o fedor do medo. Suas mãos eram como duas cobras enlouquecidas. Ele balbuciou mais alguma coisa e desistiu.
A entrega, nela estão combinados milhares de outros sentimentos e pensamentos. Mas e daí? Isso pouco importava. O momento era a vida em sua mais sórdida essência. Liberdade.
Moe reuniu a última gota de esperança que lhe restava. Sua última cartada.
- Sai da minha frente! Já não podemos imitar o que não se vê. Agora é só uma questão de tempo.
- Ah Ah Ah! Quem você pensa que é? O início sempre é o último suspiro, é no início que as coisas acabam. – Quem era ela afinal? Suas feições transpareciam dor, náusea e esquecimento. Moe tentou manter a mente em contato com a realidade por mais alguns segundos, seus intestinos aflorariam barriga afora a qualquer instante. Mas manteve-se e a parede muscular do abdômen fez sua parte.

Parte 7 – o elevador do ânus

Verde, verde sem dúvida. Os cabelos estavam parecendo fios de cobre imantados. A boca era uma mistura de borracha derretida com bosta de cachorro. Mas os olhos eram verdes, isso ele podia garantir. Ela se encostou na parede e deixou suas pernas grossas a mostra. Moe gaguejava qualquer coisa sobre si mesmo enquanto a música fazia o teto estalar.
- Pense no momento que for, você sabe o que eu penso... – Os dois brincavam com os monotadores brancos debaixo da pele.
- Ah, e depois? O que você vai inventar? Não espere que eu dirija a noite toda! – Sua boca escorria pelo chão, as palavras saltavam pra fora em velocidades diferentes.
- Não foi nada disso que eu planejei. Quando Blow Born vier e arrancar a sua perna não adianta chorar. – Moe queria parecer sóbrio, mas seu nariz sangrava sem parar. – Me ajude aqui, pelo amor de Deus!
- Cala essa boca, idiota! Born chegou!

Parte 8 – a investida de Born

- Opa! – dizia Blow Born, seu estado de espírito irradiava o local. Todos o conheciam, afinal, ele era “o monstro”.
Moe e a garota voltaram para a antecâmara, pois ainda precisavam carregar os pequenos acessórios mecânicos que incrustavam a parede no fundo da sala.
- Tá bom, quem pegou a minha válvula de descompressão? – Born brilhava, realmente. Seus pés apontavam para dentro enquanto caminhava. – AH! E quem é você? – perguntou Born diante de uma mulher extremamente pequena, talvez uma anã. – Olha, veja bem, não sei da senhora, mas eu tô com sede...
A mulher alçou vôo diante dos olhos de Born, que mal notou. Como ela fazia aquilo? Propulsão nos sapatos. Born riu e acendeu um cigarrinho preto.
- Tá, e agora? Quero uma cerva, Dub. – Dub era um índio enorme de aparência meiga, suas mãos estavam sempre juntas e seu cheiro era forte, tinha o odor da selvageria.
- Táqui, Born. Toma essa merda e sai fora. Não quero bagunça hoje. Cê destruiu todo meu bar na última vez. – O índio se movia atrás do balcão como uma lagarta numa abóbora.
- Que é isso, Dub. Cê sabe que a culpa não foi minha. E por falar nessa merda, por acaso cê não conhece um tal de Moe? – Enquanto Born falava uma fumaça grotesca cercava sua cabeça.
- Humm.Conheço, vi ele com uma piranha agora mesmo. Mas acho que se mandou. Cê sabe, né? Ele tá te devendo, não tá?


Parte 9 – Moe e Born

Moe e a garota ficaram tentando obter algum resultado miraculoso diante da “Máquina de Delírios” que Dub comprara nos arredores de Mamba City. Os botões não funcionavam direito e a carcaça estava desbotada pelo uso.
- Tá, e aí? Cê vai fazer essa porcaria funcionar? – disse a garota.
- Calma um pouco! Não vê que minhas mãos precisam de tempo! – Moe concentrava-se ao máximo. Já tinha brincado com duas dessas máquinas antes e sabia que era só uma questão de confiança.
- Não temos tempo! – berrou a garota.
Born atravessou o bar, parou com o copo um pouco acima do umbigo e decidiu começar uma reza que só ele entedia. Ficou ali durante uns dez segundos imitando um sacerdote. “O monstro” era cheio de estranhos truques, e eles davam certo na medida em que ele próprio acreditasse.
- Cara, que tédio. Hoje não tô conseguindo. – disse ele, meio triste.
Moe viu Born, suas pernas tremeram e sua barriga parecia que tinha descido até os pés. A garota gritou alguma coisa. O que não serviu para nada, Moe estava completamente surdo. Born era ágil como um lince e atingiu Moe antes mesmo que ele pudesse ver de onde o golpe viera. Alguns dentes de Moe voaram longe. A garota tentou atingir a cabeça de Born com uma picareta, mas errou feio e o golpe passou raspando o joelho de Moe.
- Meu deus! Larga essa merda! – gritou Moe. – Isso não vai adiantar nada! Liga a Máquina!
- Como? Seu filho da puta!
- Aperta o botão azul, vaca!
Enquanto isso Born desferia golpes letais em Moe, que já estava prestes a desistir. A garota apertou o botão. A sala iniciou um movimento rotatório e os três foram jogados de encontro à parede. Born sacou de imediato o que estava acontecendo – força centrífuga! - e previu seu fim. Mas estava determinado a terminar o serviço. Entretanto, a força do giro era mais forte, e de nada adiantaram seus dez anos comendo tatu em beira de estrada. Ele estava sendo vencido.
- Deus do céu! O queeee eeessssstttttáááá aaaaccccoooonnntttteeeee... – Born estava sendo esticado. Não teve tempo para mais nada. Seu corpo foi agitado, dilacerado e moído pela máquina. O que antes era um protótipo de ser humano transformou-se em um montinho de carne vermelha. A máquina apitou e se piscou toda durante algum tempo e com um forte gemido parou. Nada acontecera a Moe nem a garota pelo simples fato de terem seus monotadores fortemente vinculados à pele.
- Menos um... – disse Moe, aliviado e com os cabelos em frangalhos.

Parte 10 – errado outra vez!

No bar, diante do balcão, Moe notou que seu reflexo no espelho não era o mesmo daquela manhã. A caixinha onde colocara os restos de Born estava num banco ao seu lado. A garota tinha ido embora. Dub virou-se e disse:
- Conseguiu?
- Acho que sim. – Moe estava nervoso, acendeu um cigarro e bebeu o resto do drink.
- E agora? Você vai parar? – perguntou Dub, secando um copo com um pano imundo que levava sempre em cima do ombro.
- É impossível, você sabe...mandarão Antro atrás de mim.
- É, eu sei. Eles vão caçá-lo. Quer outro drink?
- Não, acho que não. Tenho que ir. Mas valeu.
Dub ficou ali, olhando para as costas de Moe com um ar de desolação. Não entendia direito o que havia acontecido e Moe não perdeu tempo explicando. Então, viu uma mosca pousando na beirada de um copinho de vodka e, com o pano sujo, deu um golpe curto e surdo. A mosca rodopiou e caiu com as asas tremendo. “Masááá!”, ele pensou.


Parte 11 – Antro Noise

A rua molhada vibrava parecendo viva enquanto os sapatos de Antro Noise tilintavam. Ele era um sujeito magro, aparentando ter uns 30 e poucos anos. Não mais que isso. Seus passos eram ouvidos a centenas de metros de distância. Havia algo ainda mais assustador em Antro do que em Born, seus dentes eram projetados para frente de maneira que não conseguia fechar a boca, nunca. O resultado disso era um fio de baba constante, o que o obrigava a usar um lenço o tempo todo.
“Não consigo acreditar que o desgraçado acertou Born...”, pensou. Blow Born era irmão de Antro Noise, não de sangue, mas eram irmãos.
Acenou para um táxi. Subiu e partiu. Enquanto estava ali planejou matar Moe. O taxista sorriu quando ouviu o plano de Antro.
- Do que você está rindo? – perguntou Noise, lambendo a boca.
- De nada. Só pensei que você estava brincando.
- Pára o carro! – Berrou Antro Noise, nos ouvidos do taxista.
- Ei, calma! – O taxista parou o carro.
- Agora escute bem, seu filho da puta! – disse Antro, enquanto laçava o taxista por trás com uma corda de náilon. – Você acha que eu sou algum palhaço? Por acaso tenho cara de quem está brincando, seu bosta? – A corda foi sendo ligeiramente apertada contra um pescoço esquelético. Os braços do taxista tentaram atingir o rosto demoníaco de Antro Noise. Mas ele continuou apertando, parecia não se importar com aqueles braços ossudos desferindo golpes em sua cara. A corda penetrou na cartilagem do pomo de Adão e atravessou a traquéia. Logo se ouviu o ruído de ar sendo expelido através de uma fenda. O chiado aumentou até se tornar insuportável. Os braços já não lutavam mais. Antro Noise saiu do carro e olhou para o alto. Acendeu um cigarro e saiu caminhando.



Parte 12 – cinza de cigarro dentro do copo

- Hummm. – Moe olhava pela janela de seu quarto. A caixinha onde Born jazia estava na sala, perto da televisão. Olhou para seu pulso e notou uma mancha de café. “Meu deus, da onde saiu isso?”, pensou.
Ele ficou ali parado em frente à janela durante metade da noite. Olhava as cores do bar em frente mudar de azul para vermelho em intervalos regulares de 2 minutos. Quando se afastou da janela ouviu a voz de Born.
- UUUÔÔÔÔUUUU!! – berrou a voz, perecendo um urso.
- Caralho! Que merda! – Moe acendeu um cigarro, tomou uma bola e sentou no sofá olhando para a mancha de café no pulso, não entendia de onde viera aquela mancha. Moe parou e novamente ouviu a voz.
- Moooeeeee!!!! Seu filho da puta! – Moe pegou a caixa e olhou bem de perto. A voz vinha de dentro, com certeza.
- Merda! Calma Moe. Isso é a reação da bola com a nicotina, só isso. – disse para si mesmo.
- A reação vai ser teu cérebro explodindo pelos ouvidos quando eu sair daqui, seu escroto! – A voz parecia mais controlada. Quase angelical apesar da linguagem. – Agora cala essa boca e escuta.
Moe ouviu atentamente, e com os olhos vidrados pegou a caixa e a colocou no colo. Enquanto ouvia abriu a caixa e retirou um pouco do pó cadavérico de Born. A voz saia do pó. Assustador. Por fim, Moe fechou a caixa enrolou uma nota de vinte e cheirou os resíduos do pó. Foi dormir.


Parte 13 – um pseudônimo caro

Já era manhã quando Stella Chunk limpou os lábios com guardanapos do lixo. Olhou para cima. “Ele me paga!”, pensou enquanto removia a maquiagem preta e grossa. Quando se levantou do chão notou a presença de alguém vindo pelas suas costas. Sentiu uma espetada leve na região acima dos glúteos e dor. Sequer teve tempo de olhar para trás quando caiu. O guardanapo caiu com ela, fortemente aprisionado dentro do punho.

Parte 14 – motown

Moe acordou com um pé enfiado na boca. Não era o seu pé. Era o pé de uma mulher. Meia arrastão. Bom. O pé desceu até seu peito e continuou até seu pau. “Footjob pela manhã...hummm...”, pensou. Ele apanhou um cigarro enquanto o pé mantinha um ritmo lento e gostoso. Relaxou. A mulher rasgou a meia e continuou com o pé nu. Muito melhor. As pernas dela eram enormes e brancas. Ele terminou o cigarro no exato momento em que gozava. A mulher voou para cima dele. Moe não a conhecia. Pelo menos achava que não a conhecia.
- Tá bom! E agora? – ele disse. A mulher possuía um piercing enfiado no nariz, como aqueles usados em touros.
- Agora, docinho? Agora eu vou embora. – ela levantou, vestiu a saia e foi embora.

Parte 15 – a infância de Sid

Os gatos eram a sua preferência. Mas ele matava qualquer coisa que achasse que devia matar. Rothenberg sofria de nanismo e isso sempre o incomodou. Não que pensasse ser inferior as outras pessoas, aquilo o incomodava como um espinho enfiado embaixo da unha. Constante. Na adolescência passou a cometer pequenos delitos. Matava e roubava para manter relações sexuais com travestis. Aos poucos foi sendo conhecido no circuito mais sujo do bairro e depois, da cidade. Em pouco tempo reuniu um grupo grande e passou a roubar tecnologia. De todo tipo. Foi assim que conheceu Moe. Moe era um interceptador, algo como um cão farejador. Trabalhava sozinho, freelancer.
O braço direito e assassino contratado de Sid era Blow Born, um ex-comediante e dançarino com tendências canibais que perdera a mulher numa aposta. Depois disso, ele passou a usar todo tipo de entorpecente em busca de alívio. Matou seu primeiro homem com um celular do tipo motorola-tijolo.

Parte 16 – fucking boring to dead

Moe entrou no carro de Stella pouco antes dela acender um cigarro. O cheiro no interior do veículo lembrava sua antiga namorada.
- Moe, tenho que te contar uma coisa? – disse ela, pisando fundo.
- Manda. – disse Moe, sorvendo um trago da garrafinha que carregava.
- Eu queria que soubesse...hã...eu te entreguei pro Rothenberg...
- O quê?! Sua vadia!
- Calma, Moe. Espera um pouco, merda! Eles me forçaram. – Trocou de marcha e acelerou mais.
- Ai, merda! – disse Moe, olhando pelo retrovisor. – Tão nos seguindo.
- Tá louco! – Stella conhecia a visão paranóica de Moe. – Tem uma porrada de carros aí atrás. Fica tranqüilo.
- Cala boca! Tão nos seguindo sim! – foi quando ouviu o disparo, e em câmera lenta o vidro traseiro explodiu. – Viu! Porra! Pisa fundo nessa merda!
- Caralho! Tá, olha só, tem uma doze embaixo do meu banco. Pega e atira!
Moe pegou a arma de cano cerrado, engatilhou e atirou. Errou. Atirou de novo e acertou em cheio no vidro da van. O carro não parou. Continuou até encostar no pára-choque de Stella.
- Preciso de mais cartuchos! – Disse, abrindo o porta-luvas. Carregou a arma e virou para trás.
A van tentou ultrapassar Stella, mas ela acelerou e fechou seu caminho. Moe atirou novamente. Dessa vez o tiro arrebentou o tórax do motorista. A van sem controle esfregou-se no guard-rail e faiscou. Lentamente foi perdendo velocidade, enquanto Stella sumia entre os automóveis e rumava em direção ao lado leste da cidade.

Parte 17 – chiparam meu cérebro!

Antro Noise ondulava na calçada. Babava. Reconheceu que a noite estava terminando e precisava encontrar Moe. Andou aguçado até um restaurante árabe onde pessoas comiam restos de animais. “Devo estar louco!”, pensou. Observou durante meia hora o ritual daquelas pessoas sentadas sobre as pernas ao redor de uma mesa e arqueando suas colunas em direção ao prato principal. Rindo. Brincando. Bebendo.
Antro piscou e enfiou as mãos nos bolsos. Cutucou com o dedo indicador o cabo da DevilBiss sentindo um enorme prazer naquilo.
- O que vai ser? – perguntou um garçom gordinho, com trejeitos afeminados. Noise cutucou a arma mais uma vez.
- Humm...acho que...peraí! – Sacou a pistola e deu um tiro preciso e indolor no meio da testa de um homem que segurava um lança-chamas. O homem havia saído do banheiro e estava determinado a acabar com Antro Noise, que preveu a evolução dos acontecimentos.
Todos do restaurante ficaram ali, parados, olhando para Antro de maneira curiosa. Todos sabiam o quanto ele era profissional e esperavam apenas um final rápido. Antro não poupou ninguém. Matou todos utilizando as mais diversas técnicas. Enquanto matava pensava em Blow Born e sua raiva aumentou. [Pelo lado de fora do restaurante os flashes dos disparos lembravam o estrobo de uma eletrofesta]

Parte 18 – 44h depois

Stella encontrou um cigarro amassado embaixo do banco e acendeu. Olhou para o lado, viu as curvas e entroncamentos da estrada federal contra um céu nebuloso do crepúsculo. Apalpou a barriga e gemeu. Rodaram em direção à rodoviária. Encostaram próximo a um beco, distante do complexo e Moe desceu apressado. Ele riu por entre os dentes quando pensava na oportunidade de beber um drink. Entrou na rodoviária lotada e parou no primeiro boteco que encontrou. Sorveu a vodka com alcaparras de um só gole e continuou.
Atrás dele, um vendedor ambulante dava cotoveladas e encontrões nas outras pessoas a fim de alcançá-lo. Moe se virou e encarou o vendedor.
- Tá! Qual é? Por que cê tá me seguindo? – Moe olhava direto nos dentes do vendedor, enquanto as gengivas saltavam para fora da boca.
- Ô! Calma um pouco! Não sei se viu nosso Grande Lance! Mas é como eu sempre digo...um V-8 é mais potente que o Amarelo se você adaptar as cabeças dos pistões pra melhorar a compressão...agora, eu tenho aqui duas pilhas infinitas, você quer?
- Ah! Que bobagem! Olha só, eu tenho que falar com o Açougueiro, sabe onde ele tá? – o vendedor ouviu o nome e desconectou o aparelho auditivo. Seus pêlos arrepiaram. Ele tentou correr. – Não! Peraí! – disse Moe, agarrando o homem pela garganta. - Não precisa me levar até ele, é só me dizer onde ele tá! – O vendedor pareceu se acalmar, mas suas pálpebras giravam a mil por hora.
- Dizer não! Eu desenho! E depois tu compra uma das pilhas, combinado? – Moe fez que sim com a cabeça – Me dá tua mão! – disse o vendedor. Moe estendeu a enquanto o vendedor puxava do bolso uma Mont Blanc enferrujada. Ele segurou a mão de Moe com força e desenhou um mapa.

Parte 19 – matador

Os corredores que levavam Moe até a casa de carnes eram antigos. Ensebados e escuros. Ele lembrou das vezes que estivera ali. Anos antes, quando era parceiro do “Açougueiro”.
- Quem é você? – perguntou uma voz proferida das profundezas de uma garganta corroída pelo mioma.
- Fica frio! Isso é problema meu! – Moe estava cansado e não queria mais falar. Não até encontrar o Açougueiro.
Contornou um aglomerado de pessoas que brigavam por um cachorro. Naquele lugar um cachorro era uma especiaria. Moe andou rápido, seguindo as indicações do vagabundo.
Encontrou uma porta com uma enorme cabeça de boi empalhada pendurada em cima. Embaixo da cabeça estava escrito em uma placa de bronze: “Vim de longe, quero mais”.

Parte 19.1 – blargh!

No carro, Stella costurava a própria pele. Entre um ponto e outro tomava um gole de vodka quente. Olhou ao redor, nada. A cidade estava vazia. Ligou o rádio. Muse. Acendeu um cigarro. Enquanto costurava pensou em seu ódio e no desprezo que sentia por Moe. Ele tinha que sofrer. Tinha que sofrer.
Finalizou o trabalho rápido. E entre goles e baforadas vestiu a camiseta. Sua perna tremia. Ligou o carro. Não queria ficar naquele lugar nem mais um segundo. Sua mente turbilhonada zunia um descompassado solo de guitarra a la Pixies.
“Que voz nojenta”, ela pensou, olhando pelo retrovisor. Era impossível ter premeditado a humilhação. Mas foi inevitável, não foi? “Ei, quem sabe eu não precise estar aqui? Onde tudo vai acontecer”.
Olhou o indicador de gasolina, vermelho. Pisou fundo. Voou para o portão de entrada da rodoviária - o portão onde as pessoas entravam – e acelerou tudo que podia. As pessoas só notaram aquele automóvel rugindo em direção a elas muito tempo depois do pára-choque-navalha ter dilacerado meia-dúzia.
Ela dirigia a esmo, tentando desviar das pessoas. Quando se deu conta a dor na barriga já havia sumido. “Hum, que bom”, ela pensou.

Parte 20 – gim

À noite seu instinto fluía. Flertava com inúmeras mulheres e andava meio de lado.

Parte 21 – overtwist, isso foi bem antes...

O circuito integrado da placa de vídeo funcionava mal e Moe precisava analisar a fotografia.
- Merda, Loo! Eu comprei essa bosta não faz um mês e já tá todo fodido, cara! Dá um jeito.
- Não. Peraí. Eu entreguei o lance funcionando. O problema é teu.
- Cara, olha só, eu te paguei 200 paus nessa jogada e agora tô precisando que funcione. Você sabe que eu dependo disso.
Loo estava sentado atrás de uma mesa entupida de componentes eletrônicos e ferramentas e osciloscópios. A careca brilhava de suor enquanto seu telefone móvel vibrava no bolso da calça. Ele atendeu.
- Alô! Hã...não, não sei. Que horas? Tá, vem pra cá...é, agora! Tchau!
Loo desligou o telefone e agarrou uma enorme xícara de café. Bebeu um gole. Desses que enchem a boca. Bochechou um pouco e depois engoliu.
- Voltando...Moe, eu não quero nem saber...
- Caralho, Loo...me empresta uma placa que funcione pelo menos, eu te devolvo amanhã...
- Ok. Pega essa aqui. – e apontou para uma das placas empilhadas no canto da mesa.
- Beleza...te devo essa, Loo. – disse Moe, saindo.

Um comentário:

Lady Ka disse...

esse eu li há um pouco mais de tempo........ e tu já sabe: ADOREI!

Apaixonada pelo Moe... não sei pq...