f4ca


"f4ca". digital baga. 2012.

Horseman

"horseman". digital baga. 2012.

O Problema da Demarcação

O cefalópode decidiu mover o dom pretensioso da egolatria até um local afastado dos olhos. E da alma. Compreendam que sempre visualizamos e imaginamos este locus como algo destituído de substância. Ao mesmo tempo, este locus era - e talvez ainda seja - um local habitado pela vontade. E não pela mentira, nem pelas insinuantes e fervorosas tentações rasas de ser/estar. Depois disso, a emoção, este incrível sumidouro da linguagem. Raciocínio, seu gerador complementar. Errado. Certo. As tendências são padrões de pensamento onde o que se imagina não visa nada, mesmo que supere todas as expectativas de (i)migração do corpo e da identidade. A identidade real. A personalidade. A que faliu. Que “desapareceu justaposta à constante e negativa autodestruição”. Sendo assim, esse é o ponto, não seria um início suficientemente bom, e sim um recomeço. O engraçado disso tudo é o derrotismo transvestido de ira. Contido em si mesmo como latente inspiração para o obtuso conformismo da impotência criadora.

Mar

Ela é foda. Mas de um teor foda diferente. Fluido. Quase líquido. Seu toque lembra o mar e a calma e a violência dele. E a diversidade louca dele e a variedade de todas as coisas que existem no fundo dele. Que rastejam e caminham e nadam e mergulham.

O Desenho do Campo Devastado

DESENHO CONTEMPORÂNEO NA GALERIA MARIO QUINTANA

Estação Mercado recebe mostra de Fabiano Gummo.

Amanhã, dia 6, começa nova exposição na Galeria Mario Quintana, da Trensurb: O Desenho do Campo Devastado, do artista gaúcho Fabiano Gummo. Sua série de trabalhos é uma busca pela experimentação, e/ou ampliação dos possíveis limites do desenho. Indo além do convencional, as técnicas variadas de Gummo têm forte base no desenho expressivo e na linguagem das Histórias em Quadrinhos. A mostra, última do ano na Estação Mercado, tem duração até 5 de janeiro de 2012.


Uma Realidade Bidimensional

Rafael Sica nasceu ao pôr do sol. Em setembro de 2001. Digo isso porque eu estava lá. Acompanhei o processo. Ele cresceu escondido. Teve uma infância. E como a maioria das pessoas humanas, ele morreu. Porém, havia algo extremo ocorrendo no vasto mundo real. E na imensidão das emoções também, e insights e todas essas coisas.

- Intervalo 1 - 

Agora vamos imaginar um corpo. Refiro-me a um corpo composto de moléculas e células, um constructo 100% humano. Não um simulacro. Este corpo possui aparatos sensoriais e psíquicos, e outros. Ou não, quem sabe. Tudo o que importa é que Rafael Sica reestruturou-se nesse corpo, e nele tudo era ambíguo.

E imanente.

E a incoerência da vida é oxigenada por incansáveis e intuitivos ataques contra o existencialismo rançoso. O local-síntese onde somos desmembrados e reagrupados e posicionados diante de nosso anti-espelho particular. Como Um Oráculo. 

- Intervalo 2 -

Houve a era da irreversibilidade e a era das forças contrárias se aniquilando ad nauseam. Instantes depois, as ruas frágeis e precárias projetaram nosso medo contemplativo. E nossa mente evocou imagens perceptíveis de toda nossa existência e de nossas lembranças, que são a soma de incontáveis estilhaços de realidades.

É por isso que o aterrador transforma-se em cotidiano e o cotidiano atinge níveis meta-cotidiano. E depois, tudo de novo, como em uma narrativa degenerada e eterna de fragmentos possíveis de vidas aleatórias.

Arrisco dizer que permaneceria vivo para compreender como Rafael Sica obtém essa visão panorâmica do todo. Ele certamente diria que isso é o equivalente gráfico do (extra)ordinário e nada mais...

Porque nada mais precisa ser dito, ele diria.

she is not what she is and she is what she is not

"she is not what she is and she is what she is not". digital photo. 2011.

La Noche

"La Noche". Mixed Media on paper. 2011.

Yokahai - Belluga (1993)


Artist: Yokahai
Album: Belluga
Year: 1993
Genre: Postrock
Quality: mp3

Tracklisting (downloading)
1 "Noth B" – 00:00:55
2 "Lantanium" – 00:00:15

death-dives


"death-dives". 250x333px. 2011.

sheep

Golden Camel

"Golden Camel". mobile photo. 1080x1441px. 2011

Vostok


HQ publicada na revista Picabu 4, em maio de 2009.

Casa com fumaça

 "Casa com fumaça". Aqualine, dermographic pen and india ink on paper. 2011.

Março não é menos cruel do que abril

janeiro não é menos cruel do que fevereiro
fevereiro não é menos cruel do que março
março não é menos cruel do que abril
abril não é menos cruel do que maio
maio não é menos cruel do que junho
junho não é menos cruel do que julho
julho não é menos cruel do que agosto
agosto não é menos cruel do que setembro
setembro não é menos cruel do que outubro
outubro não é menos cruel do que novembro
novembro não é menos cruel do que dezembro
dezembro não é menos cruel do que janeiro
janeiro não é menos cruel do que fevereiro
fevereiro não é menos cruel do que março
março não é menos cruel do que abril
abril não é menos cruel do que maio
maio não é menos cruel do que junho
junho não é menos cruel do que julho
julho não é menos cruel do que agosto
agosto não é menos cruel do que setembro
setembro não é menos cruel do que outubro
outubro não é menos cruel do que novembro
novembro não é menos cruel do que dezembro
dezembro não é menos cruel do que janeiro
janeiro não é menos cruel do que fevereiro
fevereiro não é menos cruel do que março
março não é menos cruel do que abril
abril não é menos cruel do que maio
maio não é menos cruel do que junho
junho não é menos cruel do que julho
julho não é menos cruel do que agosto
agosto não é menos cruel do que setembro
setembro não é menos cruel do que outubro
outubro não é menos cruel do que novembro
novembro não é menos cruel do que dezembro
dezembro não é menos cruel do que janeiro

sem título


  sem título (relação ameaçada comprometida). 500vs300 px. 2011.

Carnaval

Cena 1: Bar
Ele tá bebendo jáfaz 2horas com umas pessoas.  
Cena 6: AP de novoEla tá diferente. Seu JEITO mudou. Ele entra no AP e olha praum um grisalho de bigode. que tá na sala. Ele (ogrisalho) tá esperando ela. Esdasde que asd prostasdTem meia hora pra chegar nutrabalho. O grisalho tá chateadoe deita na cama gigante. Ela tá só d camisola com uma teta pra fora e acariciasaana noasdasf eewenquano olha pra ele dizendo que pode ir mas pra volta numotro dia. Ela balança a cabeça.

O Movimento Cardíaco




Exposição: Coração Gordo - agosto/setembro - 2011
Foto: Cristiane Costa

A/r/queologia

arqueologia da memória na galeria do dmae 

Na galeria, a primeira impressão é de que as paredes brancas, abertas em arcos, estão à espera de ocupação. No entanto, alguns passos avante, no corredor principal, e percebem-se pequenos objetos fixados na parede, diretamente. Abandono e deslocamento foi a primeira sensação que tive com a exposição Memória suspensa, aberta à visitação na Galeria do Dmae (rua 24 de Outubro, 200), até 8 de junho.
A exposição não envolve o espectador. É preciso que este caminhe até ela e, aos poucos, enfronhe-se nas memórias dos artistas Fabiano Gummo, Marcelo Armani e Marco Silva. Eles, juntamente com Lucas Moreira, formam (formavam), desde 2009, o Tentacle Ensemble Collective (TEC), que desenvolve trabalhos unindo arte conceitual, música experimental e videoarte, entre outras manifestações. No projeto Memória suspensa, eles pretendem tratar do último minuto, tentam localizar onde a mente estará quando chegar a morte, o esvaziamento. A ideia, de acordo com o material de divulgação, é que “no fim, as memórias de nossas vidas se tornarão nossa própria vida”.
Inicialmente, o projeto foi pensado para um espaço bem menor, o subsolo do Paço Municipal. A escultura de uma forma humana seria suspensa ao centro de um cubo, circundada por um objeto de cada artista. Durante todo o tempo, sons de frases e ruídos, além de vídeo de diversas fases da vida deles, seriam repassados. Essa espécie de catarse não chegou a ser realizada. O comitê municipal que define a ocupação dos espaços públicos da Prefeitura de Porto Alegre encaminhou Memória Suspensa para a Galeria do Dmae. Um desafio, pois, além de ser bem maior, é formada por três corredores, o que impediu a colocação da escultura central. Os artistas também precisaram improvisar muitos mais objetos memorialísticos, para preencher o espaço. Os problemas não ficaram por aí. No terceiro dia, o equipamento eletrônico de áudio e o telão pararam de funcionar.
Entrei em contato com Fabiano Gummo, por e-mail. Ele explicou que seria colocado um televisor e fontes de som para tentar reduzir o problema, mas acabou desistindo. A mostra já era outra. O objetivo inicial de tensão psicológica gerada a partir de um objeto de cada artista teve de ser substituído, na imensidão da Galeria do Dmae, por uma espécie de museu pessoal, em que a memória buscava novos objetos conduzidos pelo fio condutor da vida de cada um.
Não há tratamento nos objetos. Os artistas se apropriam de outros preexistentes sem modificá-los. Estão pregados nas paredes ou sobre pedestais emprestados da própria galeria. Tudo parece aleatório, reforçando a ideia de deslocamento. Ainda por e-mail, Gummo disse que a intenção não era fazer ready mades ou reapresentar objetos, mas “retirá-los do ‘depósito mental’ para que nos indicassem nossos atos do passado, nossos encontros, nossas ilusões, nossas antigas curiosidades, nossos estímulos”.
No espaço amplo do Dmae, há uma desconcertante sensação de busca por um sentido, o que, é possível, tenha impulsionado os artistas na escolha dos objetos. A apropriação está presente em toda a mostra, uma espécie de colecionismo de uma vida inteira, em que a aparente escolha arbitrária de objetos gera sentidos de identificação com o espectador (quantos não guardam bibelôs de avós, fotos de família, cartas, objetos que não têm valor estético, mas sentimental?).
Os objetos de Fabiano Gummo estão concentrados na infância. Alguns deles: uma grande folha de almanaque, com rabiscos de quando ele tinha cerca de 10 anos de idade; um bibelô que ele chama de Confúcio, mas que pode ser um Buda ou simplesmente uma figura oriental; uma fotografia dele na adolescência; uma valise que parece muito velha para pertencer a ele; um livro antigo; um cadeado; o folheto Abordagem laxativa, que ele produziu em 2007 com Fabio Godoh. Todos esses objetos, guardados ao longo de anos e agora espalhados pelas paredes e mesclados aos dos outros dois artistas, são carregados de nostalgia.
Possivelmente, são objetos de família a valise e o bibelô, assim como um livro pregado na parede. Ao denominar de Uma perna come feijão, a outra não uma bota ortopédica presa à parede pelos ferros que, no passado, agarravam-se às pernas da criança, o artista mostra um humor enviesado. Da mesma forma, a felicidade mostrada na imagem de adolescência é minimizada pela passagem do tempo, que deixou a coloração da fotografia escura, pesada. É como se ele concluísse que, afinal, todas as lembranças guardam um travo amargo.
Marcelo Armani nomina todas as suas peças com um único sinal – ? –, um ponto de interrogação. O músico e agora estudante de Engenharia parece tornar pública a dualidade de suas escolhas. A conclusão óbvia não é desmentida nos objetos expostos. Quase todas as obras são metais, peças de automóveis, restos de tomadas, uma hibridização dos dois caminhos: a concretude da ciência exata levada ao estatuto de obra de arte ao ser exposta em uma galeria. São formas inacabadas, retorcidas, surpreendentemente leves. No resgate de trajetórias que objetiva Memórias suspensas, Armani não parece tratar da dualidade como um problema; mostra, antes, uma possibilidade.
O artista faz também uma interessante exceção: uma caixa de acrílico, resumo de vida pulsante. Nela, Armani recolheu o exame de gravidez da mãe, cartas de parentes endereçadas a ele, cartões-postais de amigos, manifestações de sentimentos.
Se Gummo e Armani mostram os sentimentos de maneira intermitente, em uma caixa lacrada ou por meio de ironias, Marco Silva os oferece ao espectador desde o início. Ele é escrachado: um pedaço de si mesmo, em forma de maçarocas de cabelos, pende da parede (Higiene), uma foto, Aura, mostra seu “interior”. Outras tantas fotografias, da infância e da adolescência (sob o nome Primórdios) e da alegria da paternidade, com o filho no colo, são expostas. Ali está o artista, ele mesmo apropriado e representado. Há também uma prova de química de 1992, pautas musicais, uma velha máquina de escrever (Conflagração de ideias) com uma lupa. Assim como em Gummo, no entanto, a cor envelhecida das fotos, o fato de estarem diretamente na parede, como que largadas, não trazem conforto ao espectador, mas uma sensação de perda, de coisa esvaída, finda, um certo amargor.
Silva traz ainda outras peças, desestruturações mostradas por meio de óculos quebrados, pedaços de troncos e folhas secas (Decompositor). O tempo que foge, o fim que chega ou uma transformação?
Sonhos, trajetórias. Invocações do passado. A proposta do TEC é mostrar o que restará na memória, o que ficará, qual será o pensamento no último segundo. No entanto, o que é apresentado não lembra a morte, ou o último segundo ou o fim. Parace mais tratar-se de passagens, transitoriedades.
Não é possível saber se, não houvesse os problemas já apontados, o intento seria alcançado. De qualquer forma, este texto trata do que está exposto, não de intenções. Com um trabalho de arqueologia da memória, os artistas, cada um a seu modo, resgataram objetos que são, mais que tudo, a própria vida de cada um. Eles estão ali, com seus diários em forma de objetos, mostrando-se, uns mais, outros menos, ao espectador.
A escolha dos objetos – que é sempre subjetiva e arbitrária –, a forma crua de expô-los, a resolução definitiva de abrir mão de áudio e vídeo, tudo isso fez com que Memória suspensa tivesse uma vida independente de seus criadores se levada em consideração a proposta inicial. A sensação de deslocamento, de coisa fora do lugar que se tem ao entrar na Galeria do Dmae atesta isso. Algo está fora da ordem, espaço e objetos não se encaixam. Nesse desconforto, a mostra se adensa, não facilita. Os retalhos de vivência mostram que existe expectativa, e já não está nas mãos dos três artistas determinar se o devir é a morte ou se a suspensão é uma pausa para o continuar da vida. 
texto de Rosane Vargas