h e a d s #12


Vaporzinho


Vapor

- Em que momento da tua vida tu te viu artista? Como foi esse processo pra ti?

Acho esse "me ver artista" um problema. Penso nisso. Muito. Daí tento permanecer alerta a deslocamentos artísticos possíveis. Quero dizer com isso que procuro não vestir uma pelagem de "artista", pois para mim arte e vida estão completamente confluídas. 

- Quais são as tuas principais motivações, hoje, pra criar?

Acredito que sejam aquelas da ordem do desencontro, do desconforto, da participação e da presença. Por exemplo, se tenho uma ideia com potencialidades prático-conceituais, parece importante considerar as relações entre trabalho, vida, arte, tempo e acaso. É como aquela velha história, a criação alarga os campos de pensamento.

- O que tu tem experimentado, em se tratando de técnica e processo artístico?

Em termos de processo, continuo indo em direção às metodologias de trabalho difusas, tipo vórtex. Foi assim com o desenho/performance e continua sendo assim com a escrita, que é minha principal ação hoje. Neste momento, estou obcecado pela organização do material para a criação de um livro de artista que use o ano (e a vida) de 2015 como substrato principal.  

- Como tu vê a relação da arte nos transbordamentos cotidianos?

Se nos permitirmos evocar o pensamento da filósofa polonesa Zusi Kaglib, podemos imaginar o mundo a partir de uma estética esotérica do cotidiano. Com isso, nosso lugar para pensar a arte através desta postura enxergaria no cotidiano a própria ideia de multiplicidade. Ao mesmo tempo, pensar o cotidiano como rede que permite infinitas ficções parece (des)orientar muitas de minhas pulsões como artista.

*entrevista concedida a Mathias Moreno (13/06/2015), jornalista e escritor.  

Abertas Efêmeras


33 dias do ano de Warburg

Faz mais ou menos um ano que escrevi sobre a mansão. Foi o tempo que levei pra entender a coisa toda. Eu ia pro estúdio todo dia. Chegava 06 hora e ficava até umas 11e30. Antes do almoço eu visitava minha psiquiatra. Esse foi nosso acordo. Depois de atropelar sete pessoas numa parada de ônibus. Depois de me chapar sete dias seguidos com um zoológico de coisas erráticas. Eu pintava pra esquecer. O acordo foi aquele psicotratamento-todo-dia. Só que isso acabou comigo. A pintura me salvou. A psiquiatra era do tipo retroescavadeira na minha cabeça. Estratificando minha alma. Foi na pintura decorativa artesanal que conheci essa galera. Num tempo perdido e louco que precede qualquer narrativa escolhida, esse grupo de aspirantes queria investigar “aspectos recorrentes e profundos do pós0m. O que eu podia fazer? Eu só queria fugir de poa/rs. Tudo isso vai phaserificar minhas potencialidades cerebrais, eles diziam. Me socaram panfletos pró-irmandade. Assisti dúzias de VHS. Sentei ao lado do cadáver-grão-mestre. Conheci todos eles como “experimentadores”, ou qualquer merda parecida com isso. Repetiam sem parar que o culto refletia os contornos obscuros do sono eterno. meu graunde secreto.

Mansão Wamosy #4


Mansão Wamosy #3


Mansão Wamosy #2


Mansão Wamosy #1


Eu Não Sou Fabiano Gummo


“The Encyclopedia of Unsolved Mysteries”

Tadeu (a besta) se deu conta da errática missão yonesca que viria a seguir. Pensou meses e depois anos. Fez um longo tratamento visual na memória. Anteviu dois ativistas antiproibicionistas do uso de grass serem presos em menos de duas horas. Isso é ‘delito de pensamento’, afirmou. ‘Precisamos apurar as circunstâncias em torno de fotos que têm circulado pelas redes sociais em todo o país’. Tadeu lembra que no mundo não há concretude, somente poeira desalinhada e intuitiva. Por isso, eles o ensinaram a suplantar o mundo através de métodos de análise do tipo: regressão linear, regressão logística, árvores, análise de textos, agregação, visualização e otimização. Elza C poderia ter aprendido as mesmas técnicas, entretanto preferiu dedicar três anos lendo a notória “The Encyclopedia of Unsolved Mysteries”, escrita por Colin and Damon Wilson. Ela descobriu que a sinfonia do universo abre com uma introdução lenta e estoica, seguida de uma longa convocação utilizando um berrante afinado em dó sustenido maior.

paranormais da perifa


do Berço ao Túmulo


Elza C


Elza C já admitiu fazer parte de um complô de escala global. Hoje não. Agora Elza C carregava um ofício dizendo que o Governo Secreto da Lua não controlava mais sua mente. Ela havia sido vigiada durante muitos anos. Agora acabou, ela é sua própria vigilante. Mantém um policiamento de eterno-retorno sobre si sendo ela mesma. Elza C, que você permaneça intacta e indefinidamente forte em sua vigilância. Elza C mantém sua consciência em eterna ativação, patrulhando seus movimentos e suas escolhas.

UM RECANTO CONTÍNUO DE POROSILÊNSCIA

GORQUA
  GESTE
            ESPIAR        
            RESSPLANDEÇER
            SUBMAN     
                       TERRÃIN
           BATISCAPHO
         ENSGUIA
                                        PRUSSOSSAW
              8TRAVEN
                           F-INALITÉ
             SONA-MOTOR
             TRIEDRO-REBUS
                   COMPUTAÇÃO, REAL
     VIVEM EM MIM
      BIMOT-BIVALV
     QUEM MOVE MOVEN
     FARPADA-MULHER-MÃE
                 DUAS EX DEN
                UMA OXIGENTIU
                RECANTO CONTÍNUO DE POROSILÊNSCIA
           HORROR EM QUATITZ
                 ORGASMOCPF
                  PUBLI(SI)STEMA
                       FRASCOS BASDAUEUR
                             PÓS-DOWN
                                   KLUTER GLITCH
                                         SARAMPÔNICO
                       RU MO ELE PARAMETRIZADO
                VALATILIZARDON
                MEITOMÂNICO
               RESSALVAMARIANOTRIC
               TRIBALIENÍGENA
                         SURTOMADAMOLE-P
      DREMAVISGODOX
     OXXO
     QUADRATURAMOS POR CIMA DO VALE
              VALEIDOX
              GUTTER KLINKX
     MANODAFAXA
          OBRA IN
        ARTEX TODA NIGHT
                REQUEBRA –TELA
                       SUBAKULTA
                      SUPSÔNICANIDADES
                      XEREXMANOLO
            VISMONT DE DOZE CANO –CEE
  MOB HAD TRI DUM-DUM
   NÃO SE PODE SE
                    VARIUMVORTEX
                   PLUTÔ-NICO
                   A-LIBROS
                   ANTRONOISE
                            KEEPALACHES
   FLUNDOMARGER
   DODEDE-DEDODO
    RESTAURA
                 BLIT
YOCTP-IP
    FALANGES
     CABLE-G
      PASSA-CURTA-PASSA-LONGA
        LONTRA MAGNÂNANI
          SEJE BI
             DEXTRUNCADO
  MAUMBROTELHO
    VAZ-E-R
        VITRAUX PUSI
         FUZMEU
        COLA NO OMBRO NO OMBRO
        MEU REABRE MOTO
    MEU SU RIM
                                                  TODA VAL-A ENPIA
                                                     NEM VC ÇABERIA
            NEQT
          NEABNT
                  FLAVORUMANOS
                              EMPTYEAR
                     MASKARAVOS
       TERNOR
       DURA-MOLE
        NEO-BIT
                 CONTRACENT
                        RUMMORESPACIAIS
                            HIT-HUM
 RARTZI
                             BOLOMONDE

2013 / Capítulo 12


Pega ele, Nigel

Fig 3. Pega ele, Nigel.

2013 / Capítulo 64


100h

Você dorme uma noite inteira de sono. Acorda aceso como uma tocha. Como uma lâmpada. Você repete cem vezes o mesmo erro. Você erra tanto que não entende mais se existe algo certo ou errado. Você dorme cem vezes a mesma noite e erra cem vezes do mesmo jeito. Quando desperta você percebe que o mundo é a invenção de cem sonhos. Você acorda e da mesma forma que uma lâmpada que pisca cem vezes você dorme. Sempre uma noite de cada vez até a centésima noite – a última. Quando percebe que não há sonho nesse sono você é trazido de volta para dentro de outro sono. Tudo se parece com cem despertares, com cem noites mal dormidas. Daí você escova os dentes depois de quase doze horas dormindo um sono grosso. Intensas doze horas sem pregar o olho. Ruminando sobre uma vida repetida que erra. Diante desses códigos tranquilizadores ativados por cerca de cem horas trabalhando sem parar você vomita um sonho morto. A lâmpada inventa a sincronia de uma vida. Conforme acende e apaga define quem você/nós é/somos. Durante o sono a lâmpada já acendeu e apagou bem mais do que cem vezes. Talvez um milhão de vezes. Você sonha acordado que uma vida errante escorre pelos seus dedos como água da chuva. Você analisa os vestígios de cem dias encapsulados na vida. É noite. Enquanto você dorme você morre cem vezes um dia de cada vez depois todos ao mesmo tempo até agora.

KAOS #1


Kaos é um zine-laboratório, onde experimentos visuais_textuais têm um assunto dedicado [motto] a cada edição. Kaos é também um ensaio que flerta com o nonsense mas se deseja significante, mesmo que a nível subconsciente. Os autores desenvolvem trabalhos nas mais variadas plataformas, e buscam aqui um ponto de convergência literário para suas desacomodações espirito-filosóficas.

Produzida por Fabiano Gummo, Marco Silva e Lúcio Manfredi, KaoS é a primeira  publicação da microeditora verbovisual RUÍDO.

SUBMEN

Photo by © Carlos Ferreira

(sem assunto)

Por favor, eu preciso de sua ajuda meu marido depositou 7,5 milhões de libras com um banco quando ele estava vivo. Eu estou sofrendo de câncer de esôfago, você pode me ajudar a dublê como meu beneficiário e recolher fundos para financiar organizações de caridade.

Pega ele, Nigel

Fig 2. Pega ele, Nigel.

Atrocidades Modernas

Eu li sobre o apocalipse durante o último final de semana do verão de 1997. A cada página meu coração soluçava apresentando diversas alterações eletrocardiográficas. Era um esforço anormal virar as folhas. O romance em questão se chamava “Atrocidades Modernas”, de Paulo Becker, e certamente não agradou a crítica especializada, muito menos aqueles desinteressados em rocamboles narrativos desfigurados livremente.

Mesmo assim, alguns leitores vorazes toparam criar um grupo de leitura e me convidaram para fazer parte. Achei ok e aceitei. Eu não tinha nenhuma razão para não me engajar nessa atividade. Além disso, eu considerava o livro especial e queria muito me aprofundar nas ideias do autor. Dessa forma, digamos, eu explicitamente entrei para o grupo “Atrocidades Modernas”.

Segue um grotesco excerto do livro:

“Quando uma fórmula considerada hipoteticamente verdadeira começa a ser escrita entendemos o que vem a seguir como sendo o resultado de uma matriz com sistema lógico baseado em um conteúdo e um discurso coerente. Isso quer dizer que estamos andando ao redor de colunas conceituais de pura elegância e rigor. Assim, dentro desse plano perspectivo, e com esse tipo de linha argumentativa como aríete, estamos prontos para desvendar o mundo real, natural e físico. Nossas ferramentas, então, são a lógica, a razão e a coragem. Como dizia o ancestral humano, “um mergulho no lago naturalista não pode e não deve nos desanimar”. Somos protagonistas dessa História. Temos o poder de domá-la através de nossa retilínea perseverança. Da mesma forma que o fio da navalha fatia a carne, o verbo segrega a vida em dois planos de existência prospectando ambos em direção a uma nova e terceira existência. Esse verbo Gilette atua contra a falácia na intenção de romper a barragem que bloqueia a visão. Sabemos que essa lâmina é capaz de dividir o átomo tamanha sua potência destruidora. Entretanto, também, é capaz de atrair e agregar bilhares de naturezas e seres humanos, pois em nossos corações não há mais espaço para o metafísico nem, no obstante, para o transreal. Encaramos tudo como irrelevante quando optamos pelo processo seletivo baseado na competição. Gostaria de finalizar dizendo que a deslogicização de nossa sociedade manifestada na vultuosa e desvairada soma de medos, não deve nos assustar, tampouco deve causar perturbação. Ao contrário, ela deve ser dilacerada pelo o fio da espada e esmagada pela pureza infinita do que é Serto.”

No lábio de lebre há potência

c/ bigode

Júpiter do Cronenberg


LIVRO/indício #4



A sensação aquela, do mero estável e do lado inverso, de várias vidas sobrepostas requer paciência, pois sofre para estabelecer uma relação já morta. Esse tipo de estratégia, de re-e-encenar um indigesto mortífero axioma da vida [validado pela intenção] como se tudo estivesse desprovido de pulsação, mantém a reavaliação de todo o enredo passado e desfavorita o sentimento iminente de um futuro possível. Ao passo que trafegar no entremeio das camadas imensas de vida permite que tenhamos acesso a um longínquo percurso in progress, o real afunda nesse mesmo espaço de troca. É típico de quem emborca dois litros de álcool (cachaça) de manhã. Tão peculiar. Remete a aspectos rituais de invocação em outros círculos de existência. Dá para notar nas mãos encaroçadas cheias de dutos sanguíneos dilatados vibrando forte debaixo do sol. O gorro enterrado na cabeça pressiona as orelhas de abano comidas e machucadas. Os olhos estão em chamas e atrás deles, lava. Enxergamos tudo por minúsculas fendas ingênuas horizontais guardadas por uma centena de fios ciliais protetores. O ser é inesgotável em termos descritivos e é irregular em sua vontade de fazê-lo. Os braços movem-se em concomitância esporádica com os estímulos mentais. Tudo aqui é governado por capítulos esponjosos construídos em cima de redes virtuais entrelaçadas.     

2013


 

Prezados,

É com muita alegria que apresento a vocês meu primeiro projeto de livro.


Ele chama 2013.

A obra tem 365 capítulos, cada um deles corresponde a um dia do ano de 2013.
Ao todo são 414 páginas de texto e imagens sem um centro fixo.

Devo sua concepção a muita gente.

Queria agradecer a Cássia Nunes (pela estrutura), Aline Mota (pela energia), Marco Alexandre Silva (pelo absurdo), Carlos Sekko (pelo suporte), Larissa Milano de Souza (pela revisão), Mariana Silva (pelo START), Edu Pacheco (pelos devires), Erlon Radl (pela rádio russa UVB-76) e a Fabio Neves Martins (pela 1ª leitura).

O livro logo estará disponível. No momento os exemplares que tenho são para um fim bem específico: meu TCC.

Abraço

Pega ele, Nigel

Fig 1. Paga ele, Nigel

4. Novelty


3. A mão


1. A luta


$chave

..m

Fig. 467. Dog's bite.

 R[noise]ecuperando [flash]aquela…
Com[acute noise]o ela está[shhhhh]?
Nada [low noise] bem.
P[noise]or quê?
Entro[noise]u no meio d[noise]…[fadeout]
[fadein]enha até mim.
[fadein][noise][fadeout]
[scratch]você[shhhhh]
Po[noise]sso voltar com v[noise]ocê.
Nã[shhh]o é incômodo?[noise band]
[acutenoisephony]loucura.
Agora n[noiseatall]ão.
[clic][clic][noise]
Pobre Helena.
Tenh[noise]o muita pena dela[fadeout].
Pare feiquElena.
Sem[noise]pre teremos algo para o jantar.
[fadein]Ou não né.
O[noise]u não né.
Za[scratch]aaa.
[Noi[noise][fad[n[noise]oise]out]se]

SEQUÊNCIA NÃO FILMADA


(Defa)donho, escripto e repugna-nância. A literatura contemporânea suada gaùcha_mix com paulista se percebe enquanto grupelho, enquanto amigóide lusófano, bem funcional. Diurético solêmico. Reque-quebra portentoso por dentro, e por fora é o mesmo canto de sempre. Alunos a-bancados. Detrói’Buffalo. Pessoas mais velhas. Que ensinam outras. Baseando-se em-caixe mais do mesmo m-achado d’assis. Ou Druminnimond-do-eixo. Foge dali e vai direto para o fundo do mar-mar-Frio. Sol-que-te-pariu. Entranhas com títulos superbs. Grandiloquencilânimes no banco de recosto de troca de roupa de closet de mdf revestido com anigila branca com aspecto de mármore iluminado com luminárias estilo american 50’s lâmpadas inncannon frias halopatas. Escreve ali embaixo sem barulho atrás da nuca nem barumalúga no trovacalhado sustentoso rebenque. Escreve coisas outras que dificilmente encontra lugar dentro da gente, pois a gente, na maior parte do tempo, tem mania de repulsa. Repeleco. Entrega SEDEX12. Dentro da caixa você enviou você em 7 pacotes de tabaco. Bem na minha frente. No mercadológico de iguarias e frutas e milhares de coisinhas doces e piscoantes-piscodepois e corzinhas variando a cada milimetasegundo. Nem vou pagar essa entrega. Não é para mim. Não moro mais aqui. Avisa que eu mudei. Que eu transformei. Diz que é loucura tentar rastrear um laptop usando/com um GPS-pluto sem duque na faxinha. Pedregulho aberto à bala. Quilômetro e meio de fio de cobre enrolado em volta do pescoço espicaçalhando toda rede de trânsito.

Geradores de Sentido

Quando vejo John Baldessari queimando suas obras não penso na História da Arte. Penso no ato, desapegado, livre e provocativo. Enquanto seus amigos lançam suas obras na fornalha do crematório noto que John ri. É um riso de 1000 graus centígrados. Mas ele permanece firme, como um gigantesco orangotango da arte, barbudo e iconoclasta.

Dizem que a arte moderna nasceu da raiva e do ressentimento. Eu diria que a arte contemporânea foi gerada pelo senso de humor misterioso, confuso e ameaçador do conceitualismo. Uma das (três) correntes de pensamento de Henri Bergson, no ensaio Le Rie, de 1900, “focava a incongruência como catalisador essencial para o efeito cômico” (BEYER. 2007). Não seria, então, a incongruência – manifestada como o inverso do trivial – uma das muitas chaves para o entendimento da arte contemporânea?

Por que não podemos afirmar que exista um artista que personifique o projeto contemporâneo da mesma maneira que Pablo Picasso vestia o modernismo? A resposta é simples e está enraizada na ideia de pluralismo pós-moderno. Não existem universalismos possíveis em um mundo onde a arte se desorganiza em torno da diferença. Além disso, os pós-modernistas clamam que a arte não pode ser compreendida através de seus elementos formais, mas requerem também um entendimento do seu contexto cultural (EFLAND. 2005).

Se aplicarmos a teoria da incongruência de Bergson à arte contemporânea, poderíamos dizer que a arte conceitual, pré-arte contemporânea, consiste em instaurar modos não-conformistas de deslocar o mundo. Esse artista (pós-moderno) incongruente lança mão de preposições a cerca da realidade reinventando-a através de métodos narrativos não-lineares. Isto nada mais é do que a essência da arte conceitual. Por mais que não tenhamos permissão de utilizar a palavra ESSÊNCIA, pois os pós-estruturalistas nos queimariam vivos na fogueira da impermanência.

Assim, a elasticidade e a flexibilidade da linguagem, com o auxílio de truques que invertem os significados e transpõem os sentidos, possibilitam um ataque direto às bases estabelecidas da lógica à rigidez cotidiana. Isto quebra o senso de direção tradicional do observador obrigando-o a participar do processo pensando. Neste ponto, às objeções dos modernistas já não fazem o menor sentido. Eles permaneceram imóveis tentando compreender o conceito da planaridade em um mundo dinamicamente hiperbólico.

Querido leitor, peço desculpas pelo pensamento tangencial, vamos voltar a John Baldessari. De certa forma ele pegou esse mundo hiperbólico, massivo e saturado de ícones e manipulou como uma criança manipula argila. Bateu nele, amassou e o agrediu em surras filosoficamente homéricas. Ele ensinou o alfabeto para vegetais como um exemplo de pesquisa antropológica, enquanto o vovô Duchamp se contorcia no caixão. Baldessari perseguiu a semiologia e a destrinchou, repetindo isso ad infinitum. A essa experiência, de destruição/recriação da linguagem, ele chamou de arte.

Os espectadores do senhor Baldessari deixam suas exposições aliviados. Todos seus anseios são amenizados quando olham para as galáxias de pontos coloridos e para os milhares de narizes e pensam, “ufa, eles ainda estão lá”. As repetições, as colagens e as apropriações estão lá, penduradas na parede dos white cubes do mundo. Como toda a boa e velha arte chata. Tudo bem, John não liga para isso, os fundos para sua batalha cool continuam entrando. Novas ideias aparecem, mas a ironia incongruente continua sendo o principal dispositivo do arsenal.

Uma retrospectiva de John merece destaque, Pure Beauty (Beleza Pura), realizada entre 13 de outubro de 2009 e 10 de janeiro de 2010, no templo britânico da arte, Tate Modern. Durante 3 meses, 30 anos de sua produção foram expostas. Havia de tudo, de foto-montagens a vídeo-documentos, textos publicitários alterados e figuras removidas de pinturas clássicas. Para John, tudo pode ser manipulado e incorporado. Tudo pode ser criticado, fragmentado e revirado. O mundo é seu playground onde todas as babás foram assassinadas.

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Referências

BERGSON, H. O Riso. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BEYER, V. Limits And Laughter. The Comedy of Lenny Bruce and Andy Kaufman. Univ. Duisburg-Essen, 2007.
EFLAND, A. D. Cultura, sociedade, arte e educação num mundo pós-moderno. in: GUINSBURG, J.; BARBOSA, A. M. O pós-modernismo. São Paulo: Perspectiva, 2005.

Bookeeping # 1

Bookeeping. India ink on paper. 2013

sem título

sem título | Mixed Media on paper | Jan. 2013.

Temper

"Temper" | Mixed Media on paper | Jan. 2013.






Beard Burn

 "BeardBurn" | Mixed Media on paper | Dec. 2012.

y-o-k-a-h-a-i


O Abismo Branco

Estamos em 1896, Nietzsche olha o nada. Sua mente é incapaz de integrar um pensamento. Anos depois, sua irmã irá abandoná-lo para sempre. Quando Leibniz morreu, suas correspondências foram enviadas para Kant, 200 anos antes. Seus obstáculos em vida (de Leibni(t)z) eram de outra ordem, mais parecidos com os de Kepler, ou de Kafka. Eram envoltos pela existência. Nenhum nem outro imaginava como o mundo terminaria, e nem por isso regressaram ao útero. No conflito interno, onde o subjetivismo combate o poder, somos impelidos a voltar, isso era o que eu pensava na época. As pulsações do subsolo invertem suas direções, são como vetores multifacetados evolutivamente divergentes em relação à seta temporal. São entes imaginários. Sem precedente real. Sem lastro no mundo. Sem porra nenhuma. Isso quem disse não foi ele, foi Lorenz, a partir de uma perspectiva etimológica, em frente ao pathos. Durante o século XIX inteiro ocorreram inúmeras anomalias na superfície do sol, exatamente como hoje e como a 1 milhão de anos. Entretanto, nenhum registro gráfico desses distúrbios foi efetuado nas paredes de Lascaux. Nem em Naspolini. E muito menos na Diamantina. Isso é óbvio. Essas pessoas estavam preocupadas com a mímese da sopa primordial, estavam atucanadas com a primeira representação narrativa do mundo, mesmo que não fosse. Quando Benjamin olhou para o vasto colosso da Xerox Corp erguido no meio do deserto num centro de pesquisas em Palo Alto, ele desconfiou que suas premissas modernistas estivessem corretas. Ele era, afinal, um hominídeo pensador como qualquer outro. Era adepto do uísque e das divergências da Grande História e da metanarrativa de Lyotard. Isso eu li. Agora, desse entrecruzamento interdisciplinar com tendências artístico-artesanais, realizado em Santa Fé, Novo México, nasceu Bispo, o marinheiro esquizofrênico, e toda uma quadrilha de performers conceituais autorreferenciados e biografematizados. Nossos catedráticos - que não eram muito diferentes dos imaculados renascentistas, nem dos idolatrados neoclassicistas e nem dos pós-estruturalistas (estes sim, artistas que explodiram berços) - sabiam o que estava acontecendo. Essa é a teia. Ou melhor, uma diminuta parcela da teia dos homens do abismo branco. Do pelotão alfa-ômega que nos define. Acontece que existem estudos culturais, e estudos críticos, e estudos transgender, e tudo o mais envolvendo nano-histórias de alguma coisa impossível de apreender continuamente - pois é impossível, e porque pulsa no tempo. Mas isso não é narrar. É um não-registro. Essa é a ficção que constrói nossos sub-objetos do devir. Isso era o que Nietzsche diria, se pudesse. Mas não pode, pois sua circuitaria neuronal está em 1666, no ano dourado. No ano newtoniano. E dourado. Na aurora de um mundo mecânico com espírito alquímico e pagão.

Experiência

O excesso e a infância do homem

Georges Bataille (França, 1897 - 1962), em sua crítica ao pensamento ocidental logocêntrico, nos convida
a uma reflexão sobre a “experiência interior” que, segundo ele, é composta por forças heterogêneas como
acaso, não-saber, imprevisto, e somente faz sentido às vistas do excesso sofrido/suportado. Ele delineia a
experiência através de uma escrita desconfiada que transborda aspectos da literatura, da poesia e de um
discurso não completamente filosófico, pois a razão do discurso filosófico representa um bloqueio para uma
escrita que não tenha medo da deriva .

A experiência, aqui, não se associa ao conhecimento pré-reflexivo do sujeito com o mundo nem ao saber
herdado pela vivência. A “dialética” de Bataille é a dialética do limite e da transgressão, ao passo que
o conhecimento pode ser encontrado no não-saber, no impossível, por isso escolhe o excesso como
forma de abordagem da experiência, pois o excesso permite teorizar a respeito de campos não comuns à
filosofia, como a violência, o erotismo e o êxtase. Essa versão de experiência vivida ao extremo, enquanto
acontecimento-limite, permitiria ao sujeito uma abertura a conhecimentos imprevisíveis.

Em 1978, no livro “Infância e História: Destruição da experiência e origem da história”, o filósofo
Giorgio Agamben (Itália, 1942) avança nas discussões iniciadas por Walter Benjamin e referentes
ao suposto desaparecimento da experiência tradicional. Para Agamben, as experiências hoje são
vivenciadas fora de nós, vividas através de imagéticas urbanas, de campanhas midiáticas e de agendas
mercadológicas. Perdemos a posse sobre a experiência quando nos foi permitido ter autoridade sobre
conhecimentos “inexperienciáveis”.

Segundo ele, a ciência, e seu ideal de verdade, programada pelo projeto cartesiano, transladaram a
experiência do sujeito para um ponto abstrato, o ergo cogito (consciência), levando à supressão da
experiência na modernidade e consolidando uma crise contemporânea da experiência. Uma das conclusões
de Agamben é que o problema da experiência, em última análise, é um problema da origem da linguagem,
pois a experiência pura e muda ocorreria na infância humana anterior à linguagem.

Rush



É importante deixar claro que a intenção do acaso pode ser a não-intenção e que o não-previsto abocanha em milissegundos o destino de uma pessoa sem deixar vestígios reais de sua ação. Essa visão fragmentada de um mundo que não possui Uma Única regência cadenciada assusta o mundo das pessoas que negam o mistério da coincidência.